Endometriose: o que faz diferença no tratamento | Por dr. Ricardo Pereira
Desde antes de Cristo são conhecidos relatos de dores pélvicas no período menstrual compatíveis com as da endometriose, tornando-a uma das doenças mais antigas documentadas pela humanidade. Apesar disso, ela continua sendo mal compreendida, diagnosticada e tratada, mesmo diante dos avanços consideráveis na medicina.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a endometriose afeta 1 em cada 10 mulheres em idade reprodutiva (15 a 49 anos). Independentemente do país ou continente, da cultura ou do índice de desenvolvimento humano, o diagnóstico na maioria das vezes é tardio, variando entre 8 e 12 anos.
Esse atraso pode acarretar danos em órgãos da cavidade abdominal, especialmente na região pélvica, onde se localizam os órgãos genitais femininos, e comprometer funções importantes como a sexual, a miccional e a evacuatória, além de ser a principal causa de infertilidade conjugal.
A endometriose, frequentemente, começa a se manifestar quando os ovários iniciam sua função endócrina, no início da adolescência. E os sintomas iniciais relacionados ao ciclo menstrual são pouco valorizados pelas famílias, educadores e pela sociedade, o que pode resultar em impactos negativos na saúde emocional daquela mulher.
Mais da metade das adolescentes não compartilha com a família os sintomas que as afligem, provavelmente devido ao aspecto cultural enraizado em nossa sociedade, na qual as queixas femininas são minimizadas e pouco levadas em consideração quando comparadas com as masculinas, o que contribui para o isolamento e o atraso no diagnóstico.
Também muito comumente as mulheres que sofrem com os sintomas da doença perambulam por atendimentos médicos com acolhimento e entendimento insuficientes, sendo essa mais uma das razões para o atraso do diagnóstico, um fenômeno observado universalmente, a despeito do nível educacional e classe social.
Os sintomas variam e incluem uma combinação de dor menstrual, pélvica crônica, durante o sexo, ao urinar ou durante o movimento intestinal, na região do estômago, distensão abdominal e náuseas, entre outros. A maioria se manifesta de forma cíclica, ou seja, durante os períodos pré-menstrual e menstrual e, em alguns casos, no período da ovulação, principalmente nas mulheres que têm o ciclo menstrual espontâneo, sem o uso de medicação hormonal.
Outro sintoma extremamente comum na endometriose é a fadiga constante, caracterizada pela falta de energia – mas, infelizmente, tem sido pouco relacionada a essa doença, o que contribui para diagnósticos errôneos, associando-a à personalidade ou a problemas psicológicos.
Nos últimos anos, a ciência médica tem sido capaz de documentar que as alterações crônicas provocadas pela reação inflamatória das lesões de endometriose estão associadas ao aumento do risco de um número considerável de doenças no futuro, como hipertensão, derrame cerebral, doenças imunológicas, câncer de ovário e mama, entre outras.
Estudo realizado por pesquisadores dinamarqueses e publicado pela Sociedade Europeia de Cardiologia mostrou que as mulheres com endometriose têm risco 20% maior de sofrer AVC (acidente vascular cerebral) e 35% maior de infarto em comparação com aquelas do grupo controle. Já outro estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, publicado no JAMA, mostrou que mulheres com endometriose apresentavam risco quatro vezes maior de desenvolver câncer nos ovários.
Normalmente, os médicos não aprenderam nos cursos de medicina os impactos negativos causados pelas queixas menstruais, pois trazem consigo os efeitos culturais do menosprezo às queixas femininas relacionadas ao ciclo menstrual. Sim, a formação médica tem falhado neste aspecto.
Uma mudança urgente no esclarecimento dos sintomas da endometriose dentro das famílias e na formação médica pode ajudar a minimizar seus efeitos negativos na vida de tantas mulheres – efeitos físicos,… As mães, em geral, são a primeira referência feminina de uma adolescente que começa a menstruar; por isso, precisam saber sobre os sintomas e seus efeitos negativos na vida de suas filhas, e os médico…
*Ricardo Pereira é cirurgião ginecológico especialista em endometriose e cirurgia ginecológica minimamente invasiva do Hospital e Maternidade Santa Joana. O artigo foi publicado na coluna Letra de Médico, da VEJA.